Carta de uma portuguesa para Maitê Proença
| January 29, 2010 | Posted by Marcos Arouca under Brasil, Geral |
(Suposta) resposta de uma Portuguesa para a Atriz Maitê Proença, depois que essa disse algumas “gracinhas” no Programa Saia justa. O mesmo passou em Portugal e gerou mal estar… Segue:
Exma. Senhora:
Foi com indignação que vi a ‘peça cómica’ que fez em Portugal e passou no
programa Saia Justa em que participa. Não que me espante que o tenha feito –
está à altura da imagem que há muito tenho de si, pelo que me tem sido dado
ver pelos seus desempenhos – mas sim pelo facto da TV Globo ter permitido
que tal ignorância fosse para o ar.
Só para que possa, se conseguir, ficar um pouco mais esclarecida:
A ‘vilazinha’ de Sintra é património da Humanidade, classificada pela UNESCO
e unanimemente reconhecida como uma das mais belas e bem preservadas cidades históricas do mundo;
Em Portugal, onde existem pessoas que olham para o mouse do seu computador
como se de uma capivara se tratasse, foi onde foi inventado o serviço
pré-pago de telefones móveis (os celulares) – não existia nenhum no mundo
que sequer se aproximasse e foi também o que inventou o sistema de passagem
nas portagens (pedagios, se preferir), sem ter que parar – quando passar por
alguma, sem ter que ficar na fila, lembre-se que deve isso aos portugueses.
É um dos países do Mundo com maior taxa de penetração de computadores e
serviços de internet em ambiente doméstico. É o único país do mundo onde
TODAS as crianças que frequentam a escola têm acesso directo a um computador
(no próprio estabelecimento de ensino) – e em Portugal TODAS as crianças vão
à escola.. Muitas delas até têm um computador próprio, para seu uso
exclusivo, oferecido ou parcialmente financiado pelo Ministério da Educação
– já ouviu falar do Magalhães? É natural que não… mas saiba que é uma
criação nossa, que está a ser adquirida por outros países. Recomendo-o
vivamente – é muito simples e adequado para quem tem poucos conhecimentos de
informática.
Somos tão inovadores em matéria de utilização de tecnologia informática e
web nas escolas, que o nosso caso foi recomendado por especialista
americanos, como exemplo a seguir, a Barack Obama, que é só o Presidente dos
Estados Unidos – ao Sr. Lula da Silva tal não seria oportuno, porque ele
considera que a Escola não é determinante no sucesso das pessoas (e, no
Brasil, a julgar pelo próprio, tem toda a razão).
A internet à velocidade de 1 Mega, em Portugal há muito que é considerada
obsoleta – eu percebo que não entenda porquê, porque no Brasil é hoje
anunciada como o grande factor diferenciador a transmissão por cabo que já
não nos interessa. Já estamos noutra – estamos entre os países do mundo com
a rede de fibra óptica mais desenvolvida.E nesse contexto 1 Mega é mesmo uma
brincadeira.
O ditador a que se refere – o Salazar – governou, infelizmente, ‘mais de 20
anos’, mas para a próxima, para ser mais precisa, diga que foram 48
(INFELIZMENTE, é mais do dobro de 20). Ainda assim, e apesar do muito dano
que nos causou a sua governação, nós, portugueses, conseguimos em 35 anos
reduzir praticamente a ZERO a taxa de analfabetos e baixar para cifras
irrisórias o nível de mortalidade infantil e de mulheres no parto onde
estamos entre os melhores do mundo.
Criar uma rede viária que é das mais avançadas do mundo – em Portugal, sem
exceder os limites de velocidade e sem correr risco de vida, fazemos 300 km
em duas horas e meia (daria tanto jeito que no Brasil também fosse assim!).
Melhorar muito o nível de vida das pessoas, promovendo salários e condições
de trabalho condignos. Temos ainda muito para fazer nesta matéria, mas já não temos pessoas fechadas em elevadores, cuja função é apenas carregar no botão do andar pretendido – cada um de nós sabe como fazê-lo e aproveitamos as pessoas para trabalhos mais estimulantes e úteis; também já não temos trabalhadores agrícolas em regime de escravatura – cada pessoa aqui tem um salário, não trabalha a troco de um prato de comida.
Colocar-nos na vanguarda mundial das energias renováveis, menos poluentes,
mais preservadoras do planeta; enquanto uns continuam a escavar petróleo,
nós estamos a instalar o maior parque de energia eólica do mundo (é a energia produzida a partir do vento).
Poderia também explicar-lhe quem foi Camões, Fernando Pessoa, etc., cujos túmulos viu no Mosteiro dos Jerónimos, mas eles merecem muito mais.
Ah!, já agora, deixe-me dizer-lhe também que num ponto estou muito de acordo
consigo: temos muito pouco sentido de humor. É verdade. Não acharíamos graça
nenhuma se tivéssemos deputados a receber mesada para votarem num certo sentido, não nos divertiria muito se encontrassem dirigentes políticos com dinheiro na cueca, não nos faria rir ter senadores a construir palácios megalómanos à conta de sobre-facturação do Estado, não encontramos piada
quando os políticos favorecem familiares e usam o seu poder em benefício próprio. Ficaríamos, pelo contrário, tão furiosos, que os colocaríamos na cadeia. Veja só – quanta falta de humor! Mas, pelo contrário, fazem-me rir as sessões plenárias do senado brasileiro. Aqui em Portugal , e estou certa que em toda a Europa, tal daria um excelente programa de humor.
Que estranho não é?!
Para terminar só uma sugestão: deixe o humor para quem no Brasil o sabe
fazer com competência (e há humoristas muito bons no Brasil). Como alternativa, não sei o que lhe sugerir, porque ainda não a vi fazer nada que verdadeiramente me indicasse talento… Peço desculpa por não poder contribuir.
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Fonte: E-mail
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